Censura Musical


Veja Censurada

A editora Jaboticaba acaba de lançar o livro Veja sob Censura – 1968-1976, da jornalista e historiadora Maria Fernanda Lopes Almeida. A publicação traz textos que a revista foi proibida de publicar durante a ditadura. O material aborda como os censores esforçavam-se por impedir que o público tomasse conhecimento das restrições impostas à imprensa e os meio encontrados pela revista para evidenciar que sofrera cortes. Há páginas com trechos em branco e partes cortadas substituídas por esdrúxulas figuras de diabinhos, por exemplo. Vale a pena conferir os embates entre censores e jornalistas.

 

No site da revista, o leitor pode viajar nos textos que foram proibidos.

http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/regime_militar/abre.html

 

Leia matéria publicada na edição de 10 de dezembro, de Veja.

 


Inventário da estupidez

Um estudo detalhado das reportagens proibidas em VEJA
durante a ditadura militar expõe a arbitrariedade da censura

 

  


CORTES EXPOSTOS
Lauda com vetos da censura (à esq.), o diabinho que substituía trechos podados e a revista recolhida das bancas

Os censores da ditadura militar brasileira pareciam saber que seu trabalho era ilegítimo. Esforçavam-se por impedir que o público tomasse conhecimento das restrições impostas à imprensa. Em vários episódios de censura a VEJA, a partir de 1968 e por boa parte da década de 70, a revista tentou evidenciar que sofrera cortes, deixando trechos em branco no meio da página ou substituindo as partes cortadas por esdrúxulas figuras de diabinhos. As autoridades baixavam normas coibindo esses expedientes. Os embates entre censores e jornalistas estão documentados em Veja sob Censura – 1968-1976 (Jaboticaba; 352 páginas; 42 reais), da jornalista e historiadora Maria Fernanda Lopes Almeida.

O episódio mais emblemático da censura a VEJA se deu em dezembro de 1968, logo depois da promulgação do AI-5. O censor ficou satisfeito em saber que a revista dedicada ao tema não teria título na capa. A imagem, porém, era eloqüente: o presidente Costa e Silva aparecia sentado, sozinho, no Congresso que mandara fechar. O Exército determinou que a revista fosse recolhida das bancas. VEJA sofreu censura prévia – com um censor lendo tudo o que seria publicado – com mais rigor entre 1974 e 1976. Antes disso, o governo ditava listas de temas que não poderiam ser abordados. Para entender o impacto da censura na redação, Maria Fernanda entrevistou jornalistas que trabalharam em VEJA e o presidente da Editora Abril e editor da revista, Roberto Civita. Fez ainda uma extensa pesquisa no Departamento de Documentação da editora, recuperando textos proibidos parcial ou integralmente – o infame carimbo de "vetado" aparece nas laudas em que essas reportagens foram escritas. Dos 138 textos pesquisados por Maria Fernanda, 55 eram sobre política nacional – e 25 diziam respeito à própria censura. Houve textos que, mesmo não sendo proibidos na íntegra, tiveram a publicação inviabilizada pelos cortes drásticos. Foi assim em 1976 com o necrológio da estilista Zuzu Angel, conhecida por sua luta para descobrir o paradeiro do filho preso pela ditadura. Publicou-se apenas o título: "Zuzu Angel (1921-1976)". Até o general ditador do Chile teve declarações podadas. Em uma entrevista de 1974, Augusto Pinochet negava cinicamente a existência de presos políticos em seu país – mas o censor brasileiro não permitiu nenhuma referência ao tema. Veja sob Censura inclui episódios que se diriam cômicos. Na notícia do assassinato do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, em 1975, a expressão "relações orais" foi canetada. O jornalista trocou-a pelo sinônimo "felação", e o censor deixou passar. A burrice, como se vê, é da natureza da censura.



Escrito por Gabriel Pelosi às 15h53
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Na Folha

 A Folha de S. Paulo, de 7 de dezembro, também repercutiu o 'aniversário' de 40 anos do A.I. nº5. Leia abaixo a matéria assinada pelas repórteres Fernanda Odilla e Sofia Fernandes.

 

Médici queria revogar AI-5, diz ex-presidente da Arena

 

O general Emílio Garrastazu Médici assumiu a Presidência do Brasil em outubro de 1969 disposto a revogar o AI-5, sigla que entrou para a história como o ato institucional que escancarou a ditadura no país. Médici desistiu da idéia e assumiu uma posição linha-dura tão logo constatou, em consultas informais, que não teria o apoio de importantes aliados.

A cúpula das Forças Armadas achava cedo demais para extinguir o texto que abriu a possibilidade de fechar o Congresso, permitiu intervenção do governo federal nos Estados, institucionalizou a censura e suspendeu o habeas corpus em casos de crimes políticos.

A primeira versão do AI-5, contudo, era muito mais radical. Extinguia o Legislativo em todo país e fechava o Supremo Tribunal Federal. Essa versão foi rechaçada pelo então presidente Arthur da Costa e Silva (1967-1969), que exigiu um texto que não fosse "dose para cavalo" e só aceitou assiná-lo porque temia ser deposto.

O autor dessas revelações, até hoje compartilhadas em detalhes somente com poucos confidentes, é Rondon Pacheco, ex-chefe da Casa Civil do governo Costa e Silva. Aos 89 anos, ele é a única testemunha viva que participou de todo o processo de confecção do AI-5, no dia 13 de dezembro de 1968.

Com as credenciais de quem redigiu o texto final do ato, ajudou a fazer uma Constituição que facilitaria a revogação do ato em 1969 --mas não foi outorgada porque Costa e Silva adoeceu-- e participou da escolha da segunda chapa presidencial depois do movimento de 1964, Pacheco revelou à Folha bastidores daquele capítulo da história da ditadura brasileira.

"O presidente Costa e Silva me disse isso várias vezes em seus despachos, que ele às vezes não dormia pensando nos problemas do outro dia", recorda Rondon Pacheco, dizendo que Costa e Silva assumiu o governo gerenciando problemas. Havia, segundo Pacheco, uma conspiração sendo tramada pelo ex-governador Carlos Lacerda no Hotel Glória (RJ).

"Não foi um governo tranqüilo, apesar de estar perfeitamente constitucionalizado", diz. Mas afirma que a Constituição de 1967 assustou o autodenominado "governo revolucionário". Para o ex-chefe da Casa Civil, foi a falta de habilidade política que transformou dois curtos discursos do deputado Márcio Moreira Alves -que criticou militares no plenário da Câmara- na maior crise do governo. "Coisa do Márcio, demagogo", avalia Pacheco. Ofendidos, os militares exigiram a cassação do deputado. Pacheco conta que Costa e Silva acordou uma solução intermediária para aprovar uma licença para o deputado.

"Se tivesse havido a punição conforme já estava combinado, não teria havido nada [o AI-5]", sustenta. Mas o ministro Gama e Silva (Justiça) decidiu, à revelia, trocar os integrantes da comissão que analisava o caso para aprovar a cassação. O ministro só não foi demitido porque era amigo do presidente, segundo Pacheco.

A cassação, contudo, foi rejeitada pelo plenário da Câmara por 216 votos a 141, conforme ata da sessão de 12 de dezembro de 1968. Diante da derrota no Congresso, as condições para um golpe dentro do golpe estavam postas, na visão do governo. O presidente tomou a decisão de "nada decidir" naquela noite de quinta-feira. Nem sequer recebeu companheiros de farda, que já tramavam uma proposta para reforçar o poder das Forças. Convocou reunião para as 11h.

Na manhã daquela sexta-feira 13, começava a fase mais dura da ditadura brasileira. "Tudo foi decidido pela manhã. Quando foi para o Conselho [Nacional] de Segurança, o problema já tinha sofrido um despacho saneador do presidente", recorda o ex-ministro.

Foi convocado para a reunião um seleto grupo que ouviu do presidente a intenção de fechar o Congresso e editar um ato semelhante ao AI-1, que permitiu a cassação e suspensão dos direitos políticos de quem era contra o sistema.

"Gama e Silva estava muito agitado. Isso eu notei. Ele chegou, sentou na cadeirinha do ministro da Justiça e disse: "O ato, presidente, está pronto". Ele estava certo que ia fazer o presidente engolir o ato", revela Pacheco. A primeira versão do AI-5 proposta "era um ato terrível", nas palavras de Pacheco. Demitia todos os ministros do Supremo, dissolvia o Congresso e todas as Assembléias Legislativas. A intervenção federal seria no país inteiro, inclusive com a indicação de todos os prefeitos.

Rondon Pacheco guarda na memória detalhes daquela primeira reunião do dia no Palácio das Laranjeiras, mas revela ojeriza à versão ultra-radical do AI-5 lida por Gama e Silva. Diz que não quer nem saber que fim levou aqueles papéis.

Antes de vetada pelo presidente, a primeira versão dividiu os seis integrantes da reunião (veja quadro). A nova proposta foi apresentada no início daquela tarde. Caberia a Rondon Pacheco elaborar o texto final. "O Gama e Silva levou um projeto e eu fui expurgando".

Enquanto fechavam o texto, chegaram os membros do Conselho Nacional de Segurança para a reunião das 17h, que sacramentou o AI-5. O vice-presidente Pedro Aleixo, segundo Pacheco, trouxe uma proposta para decretar o estado de sítio e uma carta de renúncia, se Costa e Silva desistisse.

Costa e Silva permaneceu no poder, mas elaborou um plano: a outorga de uma nova Constituição permitiria acabar com o AI-5 no dia 7 de setembro de 1969. Mas adoeceu e foi afastado do cargo dez dias antes de executar o cronograma.

O presidente que sucedeu Costa e Silva também pensou em pôr fim ao ato, afirma Pacheco: "O Médici quis revogar o ato e não teve apoio. O Exército achava cedo". Escalado por Médici para presidir a Arena e depois governar Minas, Pacheco conta que o presidente recém-empossado fez consultas sobre o assunto. "Médici achou que talvez fosse melhor fazer o teste: revogar o AI-5 para ver se eles paravam com a agitação." Mas o teste nunca foi feito.

 



Escrito por Gabriel Pelosi às 14h20
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AI-5

 

 

Em 13 de dezembro de 1968, uma sexta-feira, o governo do presidente Costa e Silva decretava o ato institucional nº5. Reproduzimos aqui a análise de Carlos Marchi, repórter especial de O Estado de S. Paulo, sobre o momento político do Brasil no fatídico ano de 1968. Ouça ainda a íntegra da reunião que escancarou a ditadura e devastou a vida política e cultural do País. O Portal Estadão colocou no ar um hot site especial, com excelentes matérias e fotos sobre o tema. Confira! 

 

Acesse o link: http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowEspeciais!destaque.action?destaque.idEspeciais=876



Escrito por Gabriel Pelosi às 13h20
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